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Já a Seguir

Já a Seguir

WandaVision não é uma sitcom.

Manuel Reis, 04.03.21

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E isso torna-se óbvio, logo à partida, para quem já conhece o Marvel Cinematic Universe. Mas, para quem não conhece e cai aqui de pára-quedas… Já percebem porquê.

Primeiro, a minha atenção vai para o cuidado técnico - a todos os níveis - com que cada episódio temático foi feito, e para as referências utilizadas (I Love Lucy, The Dick Van Dyke Show, Bewitched, Good Times, That '70s Show, Family Ties, Full House, Malcom In The Middle, Modern Family, The Office, Happy Endings - só para referir algumas), que vão certamente chamar a atenção da Academia e garantir-lhe alguns prémios (em princípio será considerada uma mini-série, categoria onde irá existir forte concorrência). Sim, os penteados, o guarda-roupa e a cenografia são a faceta mais óbvia, mas os actores trabalharam as posturas que os seus colegas tinham nas respectivas épocas. A iluminação dos estúdios era a da época (com mais ou menos calor, dependendo da tecnologia) para que acertassem em cheio na fotografia. A maquilhagem foi adaptada para sobressair (quando Paul Bettany está em "modo" Vision nas cenas a preto e branco, está pintado de azul, para sobressair mais, em vez de vermelho). Tecnicamente está tudo tão, mas tão perfeito. Para quem cresceu com sitcoms de vários períodos nas noites da RTP2 (ali às 8 da noite) e é apaixonado por história da televisão, ver todo este detalhe de produção é um mimo.

Mas nada é bom sem história, e esta é uma mudança dramática para o MCU: não só representa a abertura da Fase Quatro (independentemente do adiamento de Black Widow, que se acredita ser um filme isolado) como é a primeira série produzida pela Marvel Studios, onde Kevin Feige quer, pode e manda.* E, felizmente, não segue uma estratégia adoptada por algumas das grandes séries premium dos últimos anos (como Stranger Things) ao tratar isto como “um filme de 𝑥 horas”. Em vez disso trata uma série como… uma série. Com episódios, algum isolamento narrativo entre cada um, mas avançando sempre a história maior, com o lançamento de personagens e conceitos para os próximos anos de filmes - e séries - do universo partilhado.

* Até há pouco tempo, a Marvel entregava as produções televisivas à Marvel Television - enquanto que os estúdios respondiam à Disney, a unidade de televisão respondia à liderança (um pouco mais independente) da própria Marvel. Isso explica alguma da falta de coesão de Agents of S.H.I.E.L.D. e das séries da Netflix com o restante MCU, sobretudo nas temporadas mais recentes. Sim, a terrível Inhumans, também disponível na Disney+ (caso desejem ter algumas horas de tortura) era da Marvel Television. Não havia forma daquilo passar pelas mãos de Feige e sair como saiu.

E é (quase) sempre na história que a Marvel triunfa. O oitavo episódio da série (que terá nove) oferece um momento absolutamente brilhante, daqueles que afunda o espectador que tenha criado empatia com Wanda (uma soberba Elizabeth Olsen) e com o caminho que ela percorre na série (e que já percorreu até aqui), e que é (parece-me) a génese de toda a história que a série quer contar. As interpretações de Olsen, Paul Bettany, Kathryn Hann ou Teyonah Parris, como as de algum elenco secundário (entre as quais a da inigualável Debra Jo Rupp) são incríveis, com uma performance incrível em cada episódio em que aparecem, sobretudo (como já referi) em cada uma das épocas.

A distribuição semanal, que parece uma lufada de ar fresco (quando, na verdade, é apenas a manutenção do formato com que a Disney lançou The Mandalorian e que é, muito simplesmente, o formato tradicional da televisão) é das melhores decisões tomadas. Porque uma série não é um filme, nem merece ser vista como tal. Uma série, ao contrário de um filme, permite mais tempo e espaço para que cada personagem seja desenvolvido com maior cuidado. Mesmo o lançamento semanal permite que possamos pensar e digerir melhor o que acabámos de ver em cada capítulo, ao invés de vermos seis ou sete episódios de enfiada. Permite-nos conversar, falar, dar destaque a certos momentos. O modelo binge popularizado pela Netflix pode dar jeito para ver tudo de enfiada, ou cada um ao seu ritmo - e este é, para mim, um problema. Acredito que uma série pode ser um momento social, um momento em que falamos uns com os outros sobre o que vimos durante o fim-de-semana e conversamos sobre esses episódios.

No fim de contas, vamos ter cerca de cinco a seis horas de uma história com princípio, meio e fim, em que houve muito mais tempo (e espaço) do que num filme para desenvolver uma história e para que se possa reflectir sobre ela. Não, WandaVision não é uma sitcom: é simultaneamente um tributo à história da televisão e um enorme passo em frente para o universo partilhado do qual faz parte.

O último episódio estreia esta sexta-feira, e na próxima semana estreia uma nova série da Marvel, Assemble, que irá reunir os making of do MCU daqui para a frente - em tudo semelhante ao que Disney Gallery tem sido para The Mandalorian.