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Já a Seguir

25
Fev19

Algumas considerações sobre os Óscares, edição 2019 (com resultados e análise)

Manuel Reis

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Pós-cerimónia: E eis que fui surpreendido. Primeiro, a razia: Acertei 13 em 24, muito abaixo do ano passado, um valor que sobe para 22 se incluirmos segundas opções. E que segundas opções! Sobretudo Black Panther, que eu esperava que ficasse muito perto mas que não levasse nada, e que venceu precisamente os três em que disse que podia surpreender! Olivia Colman protagonizou a grande surpresa da noite, quando todos esperavam que The Favourite voltasse ao século XVIII de mãos a abanar, ao vencer Melhor Actriz (e, assim, a prolongar o jejum de Óscares de Glenn Close). Bohemian Rhapsody venceu todos aqueles que eu esperava e Edição de Som. No entanto, começou a assustar: Será que uma votação dividida daria Melhor Filme a isto? Felizmente, não aconteceu. Roma venceu Fotografia, Filme Estrangeiro e Realizador, e Green Book leva para casa, para lá de Actor Secundário, Argumento Original e Melhor Filme (ainda não foi desta, Netflix - mas é uma inevitabilidade). Lá acabámos felizes, no Twitter. Todos os nomeados para Melhor Filme venceram, pelo menos, um Óscar, o que também diz muito da diversidade de filmes aqui presente. Apesar de ter apostado em Avengers: Infinity War, fiquei muito satisfeito com a vitória de First Man em Efeitos Visuais. E foi isto.

 

Quanto à Fox: Tiveram uma oportunidade para quebrar com o passado, mas continuou a ser o mesmo tipo de transmissão, só que pior. Felizmente deram a opção de ver sem comentários na Fox Movies - que, também felizmente, eu tenho - mas sempre que espreitava o canal-mãe ou lia comentários no Twitter sobre o que estava a ser dito na emissão punha as mãos à cabeça com o nível básico das observações feitas, fossem gritos a meio da emissão, conversas durante o final da actuação da Filarmónica de Los Angeles no In Memoriam ou o Mahershala Ali que estava «com frio» porque estava a usar um chapéu cerimonial que parecia um gorro. É pena. Em 5 anos, os Óscares foram transmitidos em 3 canais diferentes em Portugal, o que não ajuda à estabilidade de uma equipa que já conheça como a cerimónia funciona e como devem fazer as coisas. Não é necessário estarem três pessoas a comentar, basta uma que esteja bem informada sobre os nomeados, que perceba como isto está estruturado e que não fale por cima de qualquer interveniente na cerimónia (um excelente exemplo: Graham Norton a comentar a Eurovisão na BBC). A Fox também teve azar com a emissão, com um problema de som desde o início da sua cobertura que ainda perturbou uma parte da cerimónia (mas que, entretanto, desapareceu).

 

Já a cerimónia em si… Sabem que mais? O apresentador não fez falta. A cerimónia pareceu bem mais rápida do que o habitual (acabou antes das 5 da manhã, milagre) e não foi preciso cortar prémios (dois dos discursos mais elogiados da noite foram nas categorias que, supostamente, seriam cortadas). Foram para o básico dos básicos (a entrega dos prémios) e tiveram sucesso. Fórmula a repetir, desde que o palco não se volte a parecer com o cabelo de Donald Trump.

 

Vou dormir, mas fiquem com o grande vencedor da noite no Twitter:

 

Anteriormente: É um ano atípico a todos os níveis: não há apresentador, não há grandes certezas em várias das grandes categorias, a Academia tentou fazer duas alterações estúpidas - e, pior, não teve tomates para as manter - e a única certeza que eu tenho é esta: Spider-Man: Into The Spider-Verse tem de ganhar Melhor Filme de Animação. Limpou tudo o que podia nos Annie Awards, venceu todos os grandes indicadores. Foi "o" filme de animação do ano. Será uma injustiça se não ganhar, e uma injustiça ainda maior se qualquer um dos filmes da Disney (The Incredibles 2 ou Ralph vs. Internet, nenhum deles particularmente extraordinário) vencer o prémio. E podia facilmente entrar na luta por Melhor Filme, considerando os nomeados. Vamos lá falar desses.

 

Eu sou uma daquelas pessoas que defende o mérito da nomeação de Black Panther. Não, não é o melhor filme de super-heróis de sempre (achei Logan, por exemplo, melhor). Mas estamos a falar do filme que maior impacto social teve este ano numa América cada vez mais dividida. As primeiras sessões esgotavam, com público que ia ver e rever o filme, vezes sem conta. E não iam de calças de ganga ou de fato e gravata, mas com trajes africanos. Desde o momento da sua estreia - há mais de um ano! - que era falado para receber múltiplas nomeações, e a brincadeira já lhe deu um SAG Award para Melhor Elenco. É uma pena que não ouçamos "All The Stars" na cerimónia, talvez a única música que pode tirar a vitória de Óscar de Melhor Canção Original àquela porra que já não se pode ouvir. Enfim, não conto que Black Panther ganhe nenhuma das nomeações que tem, embora possa surpreender em Design de Produção, Banda Sonora Original ou Guarda-Roupa. E sim, é este o filme que eu tirava para colocar o do Homem-Aranha.

 

Eu tive de ir ver se era mesmo, e é. BlackKklansman é uma história tão louca, tão absurda, que é estranho acreditar que é real, mas é algo que aconteceu mesmo! Aliás: há tanta queixa de que a Academia discrimina comédias e, logo este ano, temos cinco nomeados. Sim, com elementos dramáticos à mistura, mas acabam por ser comédias na mesma. Dos oito nomeados para Melhor Filme, é o meu preferido. No entanto, sabendo como os Óscares funcionam, acredito que possa levar Melhor Argumento Adaptado e que se fique por aí.

 

Bohemian Rhapsody está este ano para os Óscares como Darkest Hour esteve no ano passado: um argumento que é uma grandessíssima poia previsível imaginada à volta de personagens históricos, com excesso de utilização de licença dramática, só para dar ao seu Actor Principal a hipótese (e a quase certeza) de vitória nessa categoria. No ano passado com Gary Oldman e um Churchill que ia ao metro, este ano com Rami Malek e um Freddie Mercury em que as datas do diagnóstico de VIH são alteradas para o filme ter um final "vonito". Não sou fã destas coisas. Dêem o Óscar ao rapaz, ele merece. Provavelmente ainda vai levar Montagem e Mistura de Som.

 

Vá lá, malta, parem lá com o trocadilho fácil de "The Favourite faz jus ao nome". Não faz. Pelo menos para Melhor Filme. No entanto, foi uma agradável surpresa: nunca tinha visto nada de Lanthimos até aqui, e foge muito bem ao típico filme de época com um sólido guião e três actrizes fenomenais (com a Olivia Coleman a ter, finalmente, reconhecimento para lá do Reino Unido). Extremamente bem filmado, boa palete de cores. Nas minhas apostas, leva Argumento Original, Design de Produção e Guarda-Roupa - não tendo eu certeza para as três.

 

Green Book é, para mim, o filme que pode ganhar isto se a Academia não quiser fazer história. Performances formidáveis de Viggo Mortensen e Mahershala Ali (que deve ganhar Melhor Actor Secundário), sobre uma época em que ainda sobram muitas histórias para contar.

 

Tive a mesma sensação a ver Roma que tive a ver Gravity: Um trabalho técnico absolutamente perfeito de Cuarón num filme que deve ser visto numa sala de cinema para que possa ser justamente apreciado. Não achei o argumento nada de extraordinário, embora perceba a importância do mesmo e do casting. Roma tem a história contra si: É um filme estrangeiro que vem de uma plataforma de streaming (no caso, Netflix). Será o primeiro a vencer Melhor Filme em qualquer um dos cenários, e poderá marcar uma mudança de paradigma. Veremos se o método de votação não lhe complica a vida. De resto, vitória fácil para Cuarón em Realizador e Fotografia.

 

A 7834763298234.ª versão de A Star Is Born, baseada em 732475 dos filmes anteriores, tem alguns problemas, mas Lady Gaga não é um deles. Pelo contrário, é a confirmação das múltiplas facetas da cantora, que espero voltar a ver num filme (e nomeada por acting) num futuro próximo. Sólida performance por parte dela. No entanto, para além da música (que já me faz sangrar os ouvidos de tantas vezes que já a ouvi), achei que o filme tem um grave problema de ritmo (muito acelerado na segunda metade). E o Bradley Cooper com voz de bagaço?

 

Foi o último que vi, e sim - Vice é claramente um filme contado de uma perspectiva liberal e cómica, havendo espaço para a alguma tirania. É a forma perfeita de capturar a presidência Bush-Cheney: absurda e cheia de momentos graves. O elenco está formidável - Sam Rockwell só precisava de fazer a voz - e Adam McKay cresce cada vez mais. Maquilhagem é certo.

 

No ano passado acertei 19 em 24: falhei Curta, Curta Documentário, Documentário, Efeitos Visuais e Melhor Filme (ainda estou para perceber como é que Shape of Water ganhou). Obviamente, o objectivo este ano é melhorar. Por isso, para efeitos estatísticos, contam as primeiras opções, mas vou fornecer alternativa para boa parte das categorias (estão entre parêntesis). Vou tentando actualizar ao longo da noite. A sublinhado estão os vencedores, e os meus não-acertos estão rasurados.

  • Melhor Filme: Roma (Green Book)
  • Melhor Actor: Rami Malek, Bohemian Rhapsody
  • Melhor Actriz: Glenn Close, The Wife venceu Olivia Colman, The Favourite
  • Melhor Actor Secundário: Mahershala Ali, Green Book
  • Melhor Actriz Secundária: Regina King, If Beale Street Could Talk (Rachel Weisz, The Favourite)
  • Melhor Filme de Animação: Spider-Man: Into The Spider-Verse
  • Melhor Fotografia: Roma
  • Melhor Guarda-Roupa: The Favourite (Black Panther)
  • Melhor Realização: Alfonso Cuarón, Roma
  • Melhor Documentário: RBG (Free Solo)
  • Melhor Curta Documentário: Period. End of Sentence. (Black Sheep)
  • Melhor Montagem ("a" categoria da noite): Bohemian Rhapsody (The Favourite)
  • Melhor Filme Estrangeiro: Roma (Cold War)
  • Melhor Maquilhagem/Penteados: Vice
  • Melhor Banda Sonora Original: If Beale Street Could Talk (Black Panther)
  • Melhor Canção Original: "Shallow", A Star Is Born
  • Melhor Design de Produção: The Favourite (Black Panther)
  • Melhor Curta de Animação: Bao
  • Melhor Curta: Marguerite venceu Skin
  • Melhor Edição de Som: A Quiet Place (Bohemian Rhapsody)
  • Melhor Mistura de Som: Bohemian Rhapsody
  • Melhores Efeitos Visuais: Avengers: Infinity War (First Man)
  • Melhor Argumento Adaptado: BlackKklansman (Can You Ever Forgive Me?)
  • Melhor Argumento Original: The Favourite (Green Book)
04
Mar18

Óscares: Apostas e notas rápidas nos nomeados a Melhor Filme

Manuel Reis

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Pela primeira vez na minha vida, propus-me a ver todos os nomeados para Melhor Filme, mais alguns que, não estando nomeados para Melhor Filme, também me chamaram a atenção. E consegui! No momento de publicação deste post, e dos 59 filmes nomeados, vi 20 (metade em sala), equivalendo a 77 nomeações (63,1% do total). Infelizmente não dá para ver tudo, quer por tempo, quer por limitações de acesso.

 

Antes, no entanto, uma menção honrosa para I, Tonya, que devia estar na lista de nomeados a Melhor Filme. Existem duas nomeações que são particularmente merecedoras de atenção: A de Montagem (não vai ganhar, mas o filme está maravilhosamente bem editado) e, obviamente, a de Actriz Secundária. A primeira metade do filme é de Allison Janney, e a presença dela sente-se durante o resto. Janney já domina a televisão há quase 20 anos (7 Emmys em 13 nomeações, pelo menos 2 em cada uma das séries - The West Wing e Mom - da qual fez parte a tempo inteiro) e acaba por ser estranho que só agora ela esteja a ter a atenção que já merecia há muito tempo do lado cinematográfico.

 

Call Me By Your Name: O primeiro meh desta lista. A história é bonita, está bem interpretado, mas sinto que o filme se arrastou demasiado tempo. Tem um dos melhores monólogos desta lista de nomeados. Considerando a força que tem tido ao longo desta época de prémios, deve sair com um Óscar (aposto em Argumento Adaptado, sempre uma categoria terrível para se prever quando não se conhece o material de origem - nesta categoria, apenas conheço The Disaster Artist).

 

Darkest Hour: Gary freakin’ Oldman. E é só. Bom filme para se ver em conjunto com Dunkirk (cobrem mais ou menos o mesmo período de tempo), mas toma demasiadas liberdades artísticas. Por vezes, senti que estava a ver um qualquer filme de Roland Emmerich ou Michael Bay, mas sem as explosões irreais ou os desastres inventados.

 

Dunkirk: O. SOM. Se Dunkirk não ganha alguns dos técnicos para os quais está nomeado, será uma tremenda injustiça. Um ritmo frenético numa narrativa não-linear (não costumo ser fã, mas funcionou bem aqui), que me fez estar agarrado à cadeira durante boa parte do filme.

 

Get Out: Porra, que isto é forte. Um excelente exercício de terror psicológico, com mensagens assustadoramente actuais. Jordan Peele faz um excelente trabalho na cadeira de realizador, um início de carreira cinematográfica promissor. Daniel Kaluuya, se tudo lhe correr bem, voltará a estar presente na lista de nomeados nos próximos anos. Será uma pena se não sair do Dolby Theater sem, pelo menos, uma estatueta dourada (em princípio Argumento Original, talvez - um grande talvez - Realização)

 

Lady Bird: Outro meh. Já vi esta história contada vezes sem conta, das mais diferentes formas. Em alguns momentos nota-se a inspiração de Greta Gerwig em Wes Anderson, mas leva-me a crer que gosto mais dela como actriz. Existem alguns momentos bons na montagem do filme. Se quiserem ver por vocês próprios, estreia dia 15 em Portugal.

 

Phantom Thread: “É bonito, mas é melhor veres de dia, bem acordado, porque é lento.” E… que… lento. Tal como Darkest Hour, é um filme feito à medida (pun intended) do protagonista; neste caso, Daniel Day-Lewis, na sua última (veremos) performance de uma já longa carreira. Mas, à excepção do Guarda-Roupa (em destaque óbvio, considerando a profissão do personagem de Day-Lewis), não o vejo a “terminar” com mais um prémio da Academia em casa. A Banda Sonora também é absolutamente magnífica.

 

The Post: Esta nomeação é uma palhaçada meramente política. Porquê? Porque, além desta nomeação, The Post só tem mais uma: Melhor Actriz, Meryl Streep. E, de facto, o que temos é uma exibição clássica de Meryl Streep, em que ela se adapta (e faz isso parecer tão fácil) às necessidades do papel. Mas daí a nomeá-lo para Melhor Filme é um esticão. Qualquer um dos outros nomeados tem, pelo menos, 4 nomeações. Este tipo de nomeações não deve acontecer. O filme é bom, mas não é nada de extraordinário e facilmente trocaria a presença dele nesta lista pelo já referido I, Tonya. No entanto, parabéns a Spielberg e à sua equipa pelo tempo recorde em que o completaram.

 

The Shape of Water: Entrei na sala com expectativas altas e com a ideia de ver o habitual mundo super imaginativo de Guillermo Del Toro e saí com o coração cheio e feliz por ver uma história de amor tão bem contada no grande ecrã. É quase uma tragédia Michael Shannon não estar nomeado para Melhor Actor Secundário, mas não é pior do que algo que acontece bem cedo no filme e do qual não vou falar aqui (spoilers, sorry). 

 

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri: Podemos olhar para este filme como tendo sido feito para a Frances McDormand ganhar o Óscar, mas o filme é muito mais do que isso. Com Woody Harrelson e, sobretudo, Sam Rockwell, irrepreensíveis. De todos, parece-me ser o mais consistente e com maior capacidade de agradar a todos os níveis. Embora não seja o meu preferido dos três nomeados, é a minha aposta segura para Melhor Filme, com a noção de que há um ligeiro risco de virar para outro lado. 

 

Filme: Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (pode virar para The Shape of Water)

Realização: Guillermo Del Toro, The Shape of Water (pode virar para Get Out)

Fotografia: Blade Runner 2049

Montagem: Dunkirk

Argumento Original: Jordan Peele, Get Out (pode virar para Three Billboards Outside Ebbing, Missouri)

Argumento Adaptado: Call Me By Your Name

Actriz: Frances McDormand, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

Actor: Gary Oldman, Darkest Hour

Actriz Secundária: Allison Janney, I, Tonya

Actor Secundário: Sam Rockwell, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

Banda Sonora Original: The Shape of Water (pode virar para Dunkirk)

Canção Original: “Remember Me”, Coco (pode virar para "This Is Me", The Greatest Showman)

Mistura de Som: Dunkirk

Montagem de Som: Dunkirk

Efeitos Visuais: War For The Planet of The Apes

Direcção de Arte: The Shape of Water

Guarda-Roupa: Phantom Thread

Maquilhagem/Cabelos: Darkest Hour

Curta Animação: Dear Basketball (Apenas não vi Negative Space, e adorei Garden Party. Mas, lá está, Oscar politics.)

 

Nas cinco seguintes não consegui ver nenhum dos nomeados em tempo útil. Apostas baseadas apenas em trailers, conversas e odds de sites da especialidade.

 

Animação: Coco

Documentário: Visages, Visages

Filme Estrangeiro: A Fantastic Woman (long shot: pode virar para The Square)

Curta: DeKalb Elementary

Curta Documentário: Edith+Eddie

 

A cerimónia acontece hoje à 1:00 e é transmitida na SIC (com comentários em português) e, sem comentários, no site da SIC. (Vamos ver é como é que será a latência…) Se quiserem fazer as vossas contas e ver quantos filmes e nomeações viram e quantos vencedores é que acertam, façam download desta folha de cálculo que criei. Vou estar pelo Twitter a comentar em directo, em @ManuelReis. Sigam-me por lá!

16
Fev18

Que não dê cocó: Ready Player One e Solo

Manuel Reis

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Se há dois filmes pelos quais estou ansiosamente à espera mas que têm um ENORME potencial para correr mal, são Ready Player One e Solo: A Star Wars Story.

 

Começando pelo fim, Solo teve mudanças de bastidores a meio das filmagens, quando trocaram a dupla entusiasmante de Phil Lord e Chris Miller pelo tarefeiro (sejamos honestos) Ron Howard. É para ficar agarrado ao guião, não há cá improvisos. Se gostava de ver um filme no universo Star Wars feito um pouco mais como uma comédia? Sim. (Adorei as piadas à volta do Luke em The Last Jedi - gajo velho que já está farto desta merda.) No entanto, a Disney é a Disney, e a Disney gosta que tudo esteja planeado e que o público saiba para o que vai. A Disney não é a Warner, que deixa que Lord/Miller façam um dos melhores filmes de animação dos últimos anos (The LEGO Movie) e que não passa por um anúncio de 101 minutos (que também é, mas nunca sentimos isso).

 

Ainda é indefinido quem será creditado como "o" realizador oficial do filme - Howard ou a dupla Lord/Miller. Provavelmente Howard. Seja qual deles for, está aqui o trailer.

 

 

Com Ready Player One, a ansiedade é maior. Adorei o livro. A quantidade gigantesca de referências à cultura pop dos anos 80 prendia-me. E a história também é bastante sólida. É perfeitamente razoável que seja adaptado ao cinema, até porque - e esta foi a sensação que tive quando o li - a história está contada com "ritmo" de filme. Steven Spielberg? Óptimo! (Notem que Spielberg já estava na produção deste filme quando aceitou fazer The Post, já estreado, e que é um filme bom. Só isso. Bom.)

 

Mas depois… Ele diz que tirou todas as referências aos seus filmes. No mais recente trailer, vejo uma certa insistência no Iron Giant (propriedade da Warner). O aspecto visual das cenas dentro do OASIS (a sério, leiam o livro!), especialmente dos personagens, está meh. Há DeLorean! Mas este último trailer cortou o entusiasmo que o primeiro tinha criado.

 

 

Eu quero muito ver estes dois filmes, e vou vê-los, mas já estou a gerir as expectativas. Ready Player One estreia a 29 de Março, Solo: A Star Wars Story a 24 de Maio.

05
Jan18

The Disaster Artist é giro, mas vejam The Room antes

Manuel Reis

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Estreia este fim-de-semana The Disaster Artist (PT: Um Desastre de Artista), adaptado do livro homónimo escrito por Greg Sestero e Tom Bissell, naquilo que é, diga-se, um dos melhores filmes que vi em 2017 (apanhei-o no Lisbon & Sintra Film Festival). No entanto, acho que a magia deste filme se pode perder um pouco para quem nunca viu The Room, o melhor pior filme de sempre.

 

Em 2003, Tommy Wiseau estreava The Room, um drama romântico com um clássico herói americano (Johnny, interpretado por Wiseau) que era o melhor amigo de toda a gente, tinha um emprego estável, ajudava jovens desfavorecidos e amava loucamente a sua namorada. Era um exemplo de carácter. Ou, pelo menos, era essa a ideia.

 

O filme é terrível. A sério. É das piores coisas que vão ver na vida, entre má interpretação, câmaras desfocadas, um chroma abismal, molduras com fotos de stock de colheres… E, no entanto, já o vi cinco vezes no cinema. Um visionamento de The Room com amigos (nem sequer precisam de o ver no cinema, basta juntarem malta e colheres de plástico em casa) é das melhores experiências sociais que podem ter. Um drama romântico torna-se numa comédia involuntária. Um filme independente (que custou seis milhões de dólares, tremendamente mal gastos) torna-se num sucesso de sessões da meia-noite. Por cá, já foram feitas oito (seis no Nimas + duas na mais recente antestreia nos UCI), ainda que em horários mais decentes. Há listas daquilo que devem gritar em cada cena. Ver The Room é algo tremendamente épico. No entanto, é um fenómeno de nicho. E se o é nos EUA… Ainda pior, aqui.

 

E é esse o meu receio com o Disaster Artist. Tudo bem: James Franco realizou de forma brilhante (e faz de Wiseau, num dos melhores papéis da sua carreira), o irmão Dave co-protagoniza (faz de Sestero), temos a pandilha habitual (Rogen, Scheer, Ari Graynor, Casey Wilson e muita outra malta que costuma colaborar nestes filmes)… Mas, em Portugal, está a ser tratado como filme de nicho. Nota-se pela distribuição do filme. Com o hype que havia e com o destaque que tem estado a ter, esperava mais salas (e mais importantes, como o Colombo). E podia ser bem pior, mas até acabou por ter uma distribuição nacional.

 

Por isso, e se puderem, vejam The Room antes. Embora Disaster Artist faça um bom trabalho a explicar e a mostrar algumas situações, se virem o "original" antes poderão ter uma perspectiva completamente diferente.

 

Nota: Este é The Room, com "the". É de 2003. Não é o Room, com a Brie Larson. São filmes diferentes. É só porque há quem confunda.

30
Out17

Thor Ragnarok: Sim, rio-me alto (e o filme é bom)

Manuel Reis

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Fui ao cinema ver Thor: Ragnarok. Já vos digo o que achei do filme. Por agora, vou-vos contar o que aconteceu na sala.

 

Ao intervalo, a rapariga que estava sentada ao meu lado - e que eu não conhecia de lado nenhum - diz-me que não sabia se se estava a rir das piadas do filme ou da minha gargalhada. Disse-lhe que o riso era contagioso. Ela riu-se. E continuámos a ver o filme. E a rir.

 

Não foi a primeira vez que me falaram da (ou que me tentaram mandar um recado sobre a) minha gargalhada. Se acho piada a algo, rio-me. Quanto mais piada acho, mais e mais alto me rio. Enquanto que há quem fique à vontade com isso (até chegam a agradecer-me), há outros que ficam intimidados. Lembro-me que, quando fui ver The Lego Batman Movie, logo após os primeiros 5 minutos duas pessoas que estavam ao meu lado na sala foram ainda mais para o lado da sala. Numa outra situação, pediram-me para me rir mais baixo, ou para não me rir de todo. Amigos, pedirem a alguém para não se rir numa comédia é como pedir carne num restaurante vegetariano: é parvo e não vão conseguir o que querem - a não ser que o filme (ou o restaurante vegetariano) seja mau.

 

Se me podia controlar? Talvez. Se quero? Não. Se acho piada, rio-me. E não é pior do que:

  • Falar alto durante o filme;
  • Estar aos pontapés nas cadeiras;
  • Procurar a pipoca dourada;
  • Procurar a última gota de refrigerante;
  • Mastigar de boca aberta;
  • Mexer no telemóvel (seja em mensagens, a navegar na internet, a falar ao telemóvel ou a ver as horas com o brilho no máximo);
  • Procurar os lugares com a lanterna do telemóvel a apontar para os olhos dos outros espectadores;
  • Achar que o cinema é a vossa sala de estar (não é) e apoiar as pernas na fila da frente como se fosse um puff;
  • Enfiar o cotovelo nas costelas do espectador ao lado.

Como vêem, há coisas bem piores do que alguém a apreciar uma comédia com gargalhadas altas. Riam-se também! Faz bem.

 

Quanto ao Thor: Facilmente o melhor dos filmes do deus nórdico e mais ou menos ao nível do primeiro Guardiões da Galáxia. Era difícil continuar no rumo anterior, com aquela pretensão superior de filme épico sobre deuses. Agradece-se a mudança para algo mais bem humorado. Apenas acho que teve demasiadas piadas (há pelo menos uma que é totalmente desnecessária). A Cate Blanchett é pouco aproveitada, mas trabalha com o que lhe é dado. E Jeff Goldblum a ser Jeff Goldblum, sempre algo que torna qualquer filme melhor (especialmente os que são mesmo mauzinhos). Adorei ver o Anthony Hopkins como Loki-a-ser-Odin, logo no início do filme.

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