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Já a Seguir

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O Festival da Canção, em números

Manuel Reis, 03.03.19

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Este ano, por mais variados motivos, não acompanhei o Festival da Canção (FC) como desejava. Não sou propriamente um fã eurovisivo; sou um fã de TV, de discutir TV. E o Festival da Canção, tal como a Eurovisão, cumpre todos os critérios: Luzes, som, um conceito competitivo, roupas que vão do maravilhoso ao absurdo, possibilidade de problemas de produção… existe uma multitude de critérios em que o programa se inclui. Não ouço as músicas de antemão, vejo apenas as performances. E, este ano, para além de ter outras prioridades na minha cabeça, ainda por cima a Eurovisão é em Israel. Não ajuda.

 

Por outro lado, e como é televisão portuguesa, é uma boa altura para assistirmos a uma arte na televisão portuguesa, mais do que em qualquer país: o enchimento de chouriço. Aliás, estou a escrever este texto precisamente durante esse período. Por isso, e como o vencedor deste ano já estava praticamente certo desde antes da primeira semi-final (e porque eu também só vi a final em diferido), optei por ver o Festival de uma perspectiva diferente: números! Sim, números. Contei o tempo útil do Festival da Canção. Mas que critérios uso para definir tempo útil? Simples:

 

1. Actuação das músicas, período entre músicas, introdução, idas à Green Room entre e imediatamente após as performances: cada música tem, regulamentarmente, um máximo de 3 minutos. São 8 músicas, o que dá 24 minutos para elas serem cantadas, no máximo. Os postais são importantes para alterações cénicas, e os cortes de duas em duas músicas ajudam a cortar o ritmo e a não termos de levar com música atrás de música atrás de música. A visita final também faz sentido. Com as actuações, isto acaba por ser toda a primeira parte.

 

2. Período de votação: no caso da final, este ponto não se aplica de forma tão firme: os números estavam disponíveis desde o início do programa. No entanto, caso isto não tivesse acontecido, seria considerado tempo útil, mesmo que fosse ocupado com alguém a levar para o palco carne picada e intestinos. Mesmo assim, irei considerar meia-hora para lá do final das músicas. É um valor completamente arbitrário, mas que me parece razoável para meter uma ou outra actuação, convidar malta de anos anteriores, sacar mais dinheiro desde as linhas telefónicas, etc. Dou mais 15 minutos após a votação para a "contagem dos votos" (embora seja tudo electrónico, não é?). 45 minutos, então. Vou ser bastante relaxado, porque já sei que é aqui que a coisa se vai estragar.

 

3. Apresentação das votações finais: na final há sete júris regionais que vão apresentando, à vez, a sua votação. Ainda é demorado, mas é informação necessária para o resultado final. Inclui a actuação do vencedor. Basicamente, o final do programa. Conto as votações, uma pausazinha pelo meio, antes dos resultados do televoto, mas sem qualquer performance pelo meio - porque já é tarde, a malta só quer acabar de ver o programa.

 

(A única explicação para a existência deste post é eu ter alguma forma de OCD.) São estes os critérios. São critérios meus, porque gosto da minha TV vista de forma eficiente. Siga.

 

O EPG dizia que o FC começava às 21:15 e acabava às 0:31. São 3 horas e 16 minutos! TRÊS HORAS! Vamos lá ver o que é que há.

 

Critério 1: Fora aquela introdução desnecessária do Júlio Isidro e da Margarida Mercês de Mello (2019 e ainda se encara o HD como sendo novidade? Só em Portugal, de facto), aceito totalmente o número do Palmeirim na contagem. São cerca de 70 minutos.

 

Critério 2: Estando a votação aberta desde o início do programa, dou 30 + 15 minutos. Durou - espantem-se, 50 minutos (!) durante a votação e 30 minutos até à apresentação das votações. 80 minutos ao todo (com 12 minutos de publicidade incluidos)! E tanto que podia ter sido cortado. Os arranjos d' "Esta Balada Que Te Dou" e d' "A Cidade Até Ser Dia" (esta última com Anabela, a Vampira!) eram praticamente iguais, e o da Senhora do Mar era, simplesmente, música de elevador. Os tributos são bonitos, mas acontecem TODOS. 👏🏻 OS. 👏🏻 ANOS. 👏🏻 Estava no Twitter durante uma das semi-finais e vi cansaço em relação à presença da "Desfolhada". Quando há cansaço em relação à insistência numa das canções mais importantes da história da música portuguesa… Há que mudar alguma coisa.

 

Critério 3: Votação do júri durou 12 minutos, não houve performances pelo meio (yes!), apresentar os resultados do público durou mais 4 minutos, mais 4 até ao início da actuação, e créditos a rolar às 0:12. 25 minutos ao todo, e a transmissão até acabou 19 minutos mais cedo do que o previsto.

 

Tempo útil da cerimónia: 70 + 45 (máximo) + 25 = 140 minutos, 2h20m numa emissão com 2h57m. Cerca de 80%. Nada mau. Parti para este artigo com expectativas bem mais baixas (na ordem dos 60%). No entanto, obviamente, fiz isto com alguns critérios relaxados e sem ser completamente focado na eficácia do tempo. Caso o fizesse, apenas ia contar a duração das actuações, os postais (não há volta a dar, têm de existir para mudanças cénicas) e o anúncio das votações, que até podia ser mais curto. Se eu fosse um Vítor Gaspar da produção televisiva, isto durava apenas uma hora e pouco. Como disse, aqueles foram os meus critérios.

 

O grande problema do certame, para lá das músicas sobre Portugal, e o mar, e o amor, e o mar, e o raio que o parta, e o mar, sempre esteve no meio da cerimónia: manter o público agarrado à emissão e aos telefones. Criar momentos agradáveis tanto para o público no auditório como para o de casa. Transcender gerações, especialmente num formato clássico que quer apelar às novas gerações num canal que é conhecido como o canal dos "velhos". E este ano nem foi dos piores, bem pelo contrário: Os apresentadores da cerimónia foram os três nomes mais fortes do canal público (e três dos mais fortes da televisão portuguesa) e mantiveram o programa a rolar. Houve momentos bastante sólidos, até - os cartões com comentários da internet dados pela Inês Lopes Gonçalves aos artistas é um mimo - e o guião (assinado pelo Pedro Miguel Ribeiro) estava francamente bom. Nota-se uma clara evolução no FC desde que os objectivos do mesmo foram redefinidos em 2017 - que, por acaso, nos deu a primeira vitória de sempre na Eurovisão. Novos nomes despontam, outros confirmam-se, outros ganham relevância suficiente para que o público vá conhecer outras músicas deles. Não é o Portugal popularucho do playback das tardes televisivas, é o Portugal que a RTP sempre teve escondido na Antena 3. Caramba, o NBC ficou lixado por não ter ganho! Quem é que dizia há 10 anos que isto podia acontecer?!

 

No entanto, o FC continua exageradamente agarrado ao passado. Não é preciso estar sempre a pegar nos grandes clássicos do Festival, eles estão lá. Estarão sempre ligados ao Festival, para o bem ou para o mal. O rebranding de 2017 foi grande e corajoso. Mas é preciso mais coragem. É preciso deixar de se referir o passado do Festival sempre que há oportunidade para o fazer. Se estamos a promover o futuro (e até o presente) da música portuguesa, essa promoção não deve ser feita debaixo da sombra dos grandes clássicos - até porque nunca se sabe quando podem surgir músicas que se juntem às "Conquistador" e "Umbadá" (que nem sequer ganhou) desta vida. E também porque falar com espanto das emissões em HD em 2019 soa a país atrasado. Esses clássicos estão lá, e são lembrados sempre que se diz o nome "Festival da Canção". Não é preciso mais.

 

Como é que preenchia o tempo? Bem, primeiro tornava o certame mais curto. Não dando para o fazer, há alternativas. Continue-se a pegar na actuação vencedora do ano passado. Sei que parece um contrasenso em relação ao que escrevi no parágrafo anterior, mas estou a falar de um passado recente, não dos clássicos dos anos de ouro (e histórico derrotado) do FC, os tais que são seeeeeempre recordados. Os vencedores do ano anterior a apresentar novas músicas e o troféu, isso faz todo o sentido. Incluir mais os artistas do ano da cerimónia, em momentos que dêem para passar o tempo - como o dos comentários maldosos. A ter novas versões de músicas anteriores, que sejam versões que adicionem qualquer coisa e que não sejam esquecíveis (vá, a da "Senhora do Mar" não é esquecível, pelos piores motivos) - por exemplo, esta versão d' "Esta Balada Que Te Dou", pelos Pontos Negros.

 

Para o ano, pelo menos, o Festival da Canção já merecia um drinking game. A ver se trato disso.