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Já a Seguir

Já a Seguir

Coisas estranhas com poucas façanhas

Manuel Reis, 10.06.22

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Sentimentos mistos com o que se viu da quarta temporada de Stranger Things, até agora (o Volume 1). Por um lado, a qualidade técnica está melhor do que nunca (fala-se em 30 milhões de dólares por episódio, é bem melhor que os gastem), a atenção ao detalhe da época continua lá (é um dos trunfos da série) e os actores, incluindo as novas adições ao elenco, continuam a cumprir - mesmo que alguns já pareçam demasiado velhos para as idades dos personagens que interpretam, uma condição conhecida em Portugal como Síndrome Morangos Com Açúcar. E, depois de três temporadas que não pareceram tanto séries mas filmes cortados às postas (especialmente a última), parece que os Duffer conseguiram finalmente fazer uma série em que os episódios, singularmente, têm um princípio, um meio e um fim*. Ou seja… uma série.

*Também ajuda não ter visto a série de uma assentada, ir intervalando por vários dias ou com outras séries.

Por outro lado, a duração dos episódios assusta - e com razão. Uma média de 77 minutos por episódio na primeira parte, e ainda faltam as quatro horas que vão sair a 1 de Julho (ao todo são 13 horas para 9 episódios). A verdade é que não há grande motivo para isto: há episódios que podiam ser facilmente cortados a meio (o excelente episódio 4, por exemplo, é um deles) ou re-editados. Não só para cortar material, mas para limitar os núcleos de personagens que seguimos em cada um dos episódios (como fez Game of Thrones).

Episódios grandes e maus cortes resultam em problemas de ritmo: há cenas que parecem “inchadas”, ou que me põem a pensar na morte da bezerra, que me desligam completamente daquilo que estou a ver. Um bom ponto feito no Twitter é que os intervalos e os limites das slots horárias obrigam a cortes, que vai ao encontro daquilo que sempre disse em relação ao digital: lá porque as slots horárias não existem, não quer dizer que os episódios possam durar para sempre (com espaço, naturalmente, para excepções - que devem ser isso mesmo, excepções). Nota-se que os Duffer não quiseram cortar - há partes de histórias que são desinteressantes e outras que podiam ser simplificadas, em vez de se esticarem incessantemente, ou linhas que podiam ficar por dizer.* Para uma série que se gaba de ser “mais adulta”, “mais negra” e “mais inspirada no horror” a cada temporada que passa, fartam-se de confirmar verbalmente o que se tornou óbvio cinco segundos antes. Toda esta falta de cortes leva a um mau ritmo e, para mim, à impossibilidade de ver mais do que dois episódios seguidos (ou, em alguns casos, manter a atenção em algumas cenas).

*A Maya Hawke é muito vítima disto - depois de um sólido trabalho na temporada passada, a personagem dela quase que se transformou numa má tentativa de fuga do arquétipo da damsel in distress - ou seja, numa segunda Nancy.

Esta temporada tem exactamente dois finais de episódios que resultam e que estão bem executados: o do último episódio deste volume (há que manter as pessoas agarradas para a estreia de Julho, não é?) e um outro, que parece ser o final do primeiro acto da temporada, e cujo timing está tão bem conseguido que parece saído de um acordo divino (wink wink). Todos os outros são cliffhangers que se tornam totalmente irrelevantes quando podemos avançar logo para o episódio seguinte - que foi o que fiz, muitas vezes, só para ver a conclusão da cena e parar de ver imediatamente antes do genérico. Seriam bons ganchos se a série fosse lançada semanalmente - mas os Duffer já sabem como é que a Netflix lança as coisas, e podiam ter feito algo diferente.

Pelo que leram até agora, parece que não gostei do que vi desta temporada. Gostei! Até gostei bastante. Mas quase nada daquilo que gostei é novo para a série, e muito daquilo do que não gostei são mudanças de formato que, muito simplesmente, são experiências que não resultaram tão bem (algumas podiam resultar se o lançamento dos episódios fosse feito de outra forma). Ao fim de três anos de interregno, Stranger Things regressou muito igual a si mesma: megalómana e revivalista, no bom sentido, mas com menos charme do que das outras vezes. Quem gosta muito da série vai continuar a gostar, quem não gosta e já viu não vai ver. Mas espectadores não vão faltar à maior série da Netflix.

As três primeiras temporadas e os primeiros sete episódios da T4 de Stranger Things estão na Netflix. Os dois últimos capítulos da T4 estreiam a 1 de Julho, e a série irá terminar na quinta temporada.

Algumas notas com spoilers (e elogios) depois desta imagem.

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  • Os tais $30M/episódio notam-se bem quando Millie Bobby Brown interpreta a Eleven ainda em criança, com um novo passo na tecnologia de rejuvenescimento digital e deepfakes. Ajuda ter imensas imagens de referência com alta qualidade e boa iluminação, mas a série faz alguns planos algo complexos para este tipo de efeito (e que nem outras produções que fazem utilização regular desta tecnologia, como vários dos mais recentes capítulos de Star Wars, ou qualquer coisa que venha da Marvel, conseguiram atingir). É preciso ser extremamente picuinhas para encontrar imperfeições neste ponto, e por uma vez não irei contribuir para isso.
  • Os dois finais de que falei são, obviamente, o épico com a "Running Up That Hill", que ajudou a catapultar a música de Kate Bush de volta aos tops (e no top 10 da Billboard pela primeira vez!); e a origin story do Vecna, o One, um twist razoável que, mesmo com os artigos que foram surgindo ao longo da semana a falar disso mesmo (que não li, mas surgiam na timeline, e estragam a experiência - é mais um dos muitos motivos para não gostar da forma como a Netflix parece forçar o bingewatching), ainda adicionou ali o pormenor do Henry Creel. Giro.
  • Onde é que há excessos? Sobretudo em dois pontos: o subplot da Rússia podia ter sido bem mais resumido, e o do grupo da Califórnia fica pouco justificado depois da saída da Eleven. E, como já referi, nas constatações óbvias.
  • As novas adições ao elenco são fixes. Já faltava o amigo janado, o metaleiro sensível e a miúda mais gira do liceu que acaba por se dar bem com ele. Só é pena ela morrer logo na estreia. São clichés, sim, mas são bem executados.
  • Fui só eu que senti uma satisfação nociva ao ver a Eleven a espetar com a roda de um patim no nariz da bully? Já agora, mais um elogio para a MBB a interpretar uma Eleven mais crescida mas que continua a carregar com ela todas as dificuldades inerentes ao seu processo de crescimento: não só o trauma acumulado das experiências no laboratório, mas as dificuldades nas interacções sociais e na fala, e até como a mudança para fora de Hawkins (onde, como se viu na T3, conseguiu ser bem integrada na vida normal de uma adolescente) provocou uma certa reversão na evolução dela. Está tudo nos detalhes.
  • A curta exploração da sexualidade do Will pareceu-me atirada ao pontapé para o meio da série. A verdade é que o Will sempre meu pareceu pouco relevante no grupo após a primeira temporada, nunca necessariamente “um dos” mas “mais um”. Era uma história que podia ter merecido mais alguns minutos durante esta parte, e que os Duffer já disseram que será abordada nos próximos dois episódios.

The Multiverse of Meh-dness

Manuel Reis, 09.05.22

Estava enganado.

Não tenho muito a dizer sem ir aos pormenores e ao enredo. É mais um filme da Marvel, não é particularmente revolucionário ou épico, tem um ritmo estranho, mas deram espaço para que Sam Raimi introduzisse algumas das suas assinaturas visuais. Tanto a realização como grande parte das performances ajudam a compensar algumas das falhas do argumento de Michael Waldon, uns furos abaixo do esperado. Elizabeth Olsen faz mais um estrondoso trabalho (com o que lhe dão),

Tenho muito mais a dizer, incluindo uma explicação sobre as razões do meu engano, mas só quem viu o filme é que deve ir ao beco ter com esta pandilha. Spoilers a partir deste ponto.

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What If…? é mais importante do que se esperava

Manuel Reis, 03.05.22

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A proposta de What If…?, muito como nos comics, é simples: mostrar universos alternativos em que os personagens e as histórias que conhecemos são diferentes (diferenças essas que oscilam entre ligeiras e virar o universo totalmente do avesso). A grande nuance é que, desta vez, esta seria a primeira série animada do Marvel Cinematic Universe (MCU) - e a primeira série animada da Marvel Studios, que absorveu as produções televisivas da empresa.

Quem acompanha o MCU sabe que nada aqui acontece por mero acaso: um filme (ou, desde o ano passado, série) prepara o lançamento de mais dois ou três projectos. O que eu não esperava era que esta série fosse ter algum tipo de importância noutras produções do MCU a tão curto prazo, como tem sido prometido nos trailers de Doctor Strange and The Multiverse of Madness (que estreia hoje nos cinemas, e que já ia fazer a ponte com WandaVision), e, sobretudo, por se tratar de uma obra de animação.

O formato da série acaba por dar jeito à Marvel: é uma forma de expandir a história e a presença de personagens cujos actores não estão sob contrato ou, estando, para quem seria demasiado caro adicionar este projecto - por muito que digam que tenham convidado os actores originais, e que estes recusaram por conflitos de agenda (Dave Bautista, directo como sempre, disse que o convite não lhe chegou). No entanto, nenhuma das performances compromete face aos actores originais - soam diferentes, mas credíveis. O grande problema no som da série é, de tempos a tempos, alguma da mistura dos diálogos com outros elementos. Tudo parece ter sido feito de uma forma um pouco crua, pouco equilibrada.

Quanto ao estilo de animação… não sou fã. É uma preferência meramente pessoal, Não é pela a ausência de caracterização em relação aos actores de carne e osso (a obra deve conseguir valer por ela própria), mas com a modelagem 3D com aspecto de 2D. Não com a ideia da aplicação da animação em si (há exemplos recentes, maioritariamente da Sony - Spider-Verse, Peanuts, Mitchells - que conseguem uma boa mistura de técnicas), mas com a sua implementação: há artificialidade em alguns movimentos dos personagens, a mistura de algumas técnicas de anime pelo meio parece dissonante… Preferia algo mais simples, coeso, e de melhor qualidade. Mas, tal como no caso das vozes, não chateia ao ponto de recusar por completo o produto final.

É uma série (semi) antológica, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Algumas das histórias são boas, outras também lá estão. Como sketches do SNL, há sempre uns episódios mais memoráveis do que outros; só quando estava a preparar este texto é que me relembrei do episódio do Killmonger (de que não fiquei fã, de todo) e do do Thor (com o qual não me importei tanto, até gostei, embora me tenha parecido, quando acompanhei a temporada, que foi o mais mal recebido dos nove). Dispensava o dos zombies: é um conceito que, em 2021, é sobre-utilizado*, mas continua a vender bem (tão bem que a Marvel pôs em desenvolvimento um spin-off).

* Sim, tenho presente a irona de que acabei de chamar “sobre-utilizado” ao conceito de um episódio de uma série num universo partilhado de media que tem dominado o cinema e a cultura pop na última década.

No elenco, obviamente, há que destacar Jeffrey Wright, o Watcher, que será uma excelente opção para uma versão live-action do personagem (caso lhe seja dada essa opção), mas também Benedict Cumberbatch, que carrega às costas o melhor episódio da temporada, e que trabalhou muito bem as diferentes versões de Strange. Hayley Atwell tem mais espaço para desenvolver as diferentes facetas de Peggy Carter, depois de duas temporadas da formidável Agent Carter. E é dos últimos trabalhos de Chadwick Boseman antes da sua morte, num papel que o actor adoptou de coração cheio.

Resumidamente: a série acaba por se tornar essencial para quem quer estar a par da história contada no MCU (sobretudo nesta nova saga) e, se calhar, um pormenor divertido para os espectadores casuais que vão vendo os filmes, mas que não fazem questão de seguir as séries (bastante boas, de uma forma geral) que vão sendo feitas no Disney+. Não é perfeita nas histórias, nem a nível técnico, mas consegue contar excelentes narrativas quando acerta nas opções.

What If?… tem uma segunda temporada a caminho (ainda sem data de estreia marcada). A T1 pode ser vista no Disney+.

“O Problema Com Jon Stewart” não tem grande piada. Mas, tinha de ter?

Manuel Reis, 14.10.21

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Ultrapassado “o problema” que foi conseguir ver o episódio na data que a Apple TV+ amplamente anunciou como sendo de estreia sem qualquer reserva (e que, chegado ao dia, a Apple diz que afinal, em Portugal, só estreou hoje - data em que, originalmente, é lançado o segundo episódio deste programa quinzenal), eis alguns apontamentos…

Há uma ideia muito generalizada de que a pessoa com quem um comediante (especialmente quem faz stand-up comedy num qualquer bar) mais tem de lidar é aquele tipo que se senta numa cadeira, cruza os braços e, não dizendo, tem uma atitude de “vá, faz-me rir”. Quem já experimentou sabe: é terrível, é uma enorme pressão.

Mas Jon Stewart parece tranquilo com isso.

Este Jon Stewart não é o mesmo que terminou a sua estada na cadeira do The Daily Show em 2015. Está mais magro, tem barba, parece que envelheceu imenso. Se calhar este até é o seu estado natural, estado no qual já estava poucos meses depois. Até podemos dizer que estará mais amargo, mais cru. Para quem não o via desde 6 de Agosto de 2015, pode ser um choque.

Mas ele não tem estado ausente: seja nas suas aparições esporádicas no The Late Show de Stephen Colbert (é um dos produtores executivos), seja a promover o filme que realizou entretanto, seja num contrato com a HBO que acabou por seja a falar dos animais resgatados por ele e pela mulher, seja a defender o acesso a cuidados de saúde por socorristas do 11 de Setembro - foi uma das vozes mais activas na defesa destas pessoas e contribuiu para que, finalmente, fosse passada uma lei para que estas pessoas possam ter acesso a cuidados médicos enquanto assim necessitarem.

E é precisamente este lado, o Jon Stewart activista, que The Problem With Jon Stewart mostra - pelo menos no seu primeiro episódio. Dois dos episódios mais marcantes do Daily Show foram aqueles em que Stewart recebeu socorristas em estúdio para apontar um foco para a situação dramática que eles viviam. Em 2010, a conversa foi com quatro first responders. Uns anos depois, quando foi preciso renovar esforços para voltar a aprovar a legislação necessária, ele repetiu o segmento - com a diferença de que ele já não era apresentador do programa… e de que, entretanto, um dos quatro já tinha morrido e outros dois estavam demasiado doentes para lá voltar. As idas a Washington repetiram-se até 2019, altura em que o Congresso e o Senado aprovaram por maioria esmagadora (não por unanimidade, porque há sempre uns idiotas) o pagamento destes cuidados de saúde até 2092 - efectivamente, para sempre.

O primeiro episódio, “War”, acaba por ser um porto seguro de partida para Stewart, por tocar num assunto (falta de cobertura médica a veteranos de guerra, especialmente aos que foram expostos a ambientes tóxicos causados pelas próprias forças armadas norte-americanas) que lhe é familiar, com a experiência acumulada a acompanhar os first responders. Não, não há muita comédia (e a que há, no geral, é parva), mas ainda há espaço para alguma boa disposição no meio da exploração de caos e tragédia. Todo o episódio é dedicado a apenas um tema, dividido em três segmentos, entre monólogo, conversa e entrevista - ou, visto de outra forma, “isto está mal”, “vamos falar com quem é afectado” e “vamos falar com quem pode resolver isto”.

Não me parece chocante que Stewart faça um programa destes. Tem um tom bastante distinto de Last Week Tonight, do discípulo John Oliver, que também explora um tema em profundidade - mas que fala demasiado depressa e salpica, por vezes em excesso, piadas entre o que está a explicar. Aqui não há um desejo expresso em fazer um programa de humor; há, sim, o desejo de explorar um tema - e, se se conseguir meter umas piadas pelo meio, melhor.

Não me causa particular impressão, muito sinceramente: Stewart não tem de provar nada a ninguém sobre aquilo que é capaz de fazer, muito menos aos tipos que estão sentados no sofá e que lhe dizem “faz-me rir”. Ele prefere fazer pensar e até fazer com que nós, enquanto sociedade, façamos alguma coisa. Se calhar o resto do staff é que tem de provar alguma coisa: a edição está um bocado abrutalhada (se calhar beneficiávamos de um programa mais longo e com entrevistas ou painéis com menos cortes) e os segmentos cómicos podiam (e deviam) ter mais piada. É o primeiro episódio, há muita margem para melhorar. Os segmentos de “bastidores”, como que na pré-produção dos episódios, funcionam bem. Como formato já se percebeu mais ou menos do que se trata. Venham mais episódios - de preferência em simultâneo para todo o mundo.

Y: The Last Man salvou-se da extinção, mas precisa de convencer

Manuel Reis, 23.09.21

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A primeira coisa que me veio à cabeça ao ver o primeiro episódio de Y: The Last Man (português: Y: O Último Homem) - cuja premissa elimina todos os mamíferos com cromossoma Y da face da Terra - foi uma mini-série chamada 10.5 (ou a sua sequela, 10.5: Apocalypse), um disaster film algo foleiro que passava, por vezes, nas tardes da TVI. E nem era tanto pela história ou pelo elenco, mas pela execução. Tal como nesses disaster films, com um formato semelhante ao de Independence Day, os motivos estão lá: personagens que, por acaso, são importantes; e que, por acaso, estão ligados entre si; e que, por acaso, sobrevivem a um evento de extinção de metade da população humana. De uma forma muito frouxa, muito óbvia, demasiado conveniente e pouco convincente.

O primeiro episódio serve precisamente para situar a história, para nos explicar estas relações, para nos dar o mundo que conhecemos (ou que conhecíamos, antes do mini-apocalipse que tivémos nos últimos 18 meses) e como esse mundo muda após este evento - a grande vantagem dos serviços de streaming, com o lançamento de múltiplos episódios (não necessariamente todos), é poder desenvolver as linhas gerais com mais calma, mas poder continuar a vê-la desenvolver-se até um certo ponto.

O material original, a BD homónima de Brian K. Vaughan e Pia Guerra, também não é estranho a estes acasos, mas a série toma algumas liberdades e acaba por criar personagens que servem por dois (como é normal e natural em adaptações de literatura para o ecrã - na nossa imaginação não há limites orçamentais), o que aumenta os tais acasos. Nessas liberdades houve uma actualização extremamente bem-vinda do cenário geo-político, com uma integração da hostilidade proto-fascista do actual Partido Republicano, que alimenta (e se alimenta de) conspirações e teorias mirabolantes - muito para lá das críticas que já existiam na obra original (e que acabam por se manter, 20 anos depois).

Haver série já é muito bom: em desenvolvimento no FX desde 2015, sempre nos estúdios do próprio canal*, o piloto foi apenas produzido a meio de 2018, com base num guião de Michael Green (Heroes, Logan, Blade Runner 2049), que seria um dos showrunners da série. Essa apenas foi confirmada em Fevereiro de 2019 e, no Verão desse ano, houve uma nova mudança de bastidores: saíram Green e Aida Mashaka Croal, que fez parte das equipas de Luke Cage e Jessica Jones, e entra Eliza Clark, que ainda tem de ver uma mudança na distribuição da série (passou do FX, um canal linear, para o Hulu, serviço de streaming da Disney, com a etiqueta FX on Hulu - sim, é confuso.

*Ironia do destino: depois destes anos todos, a FX acabou por ir parar às mãos da Disney e acaba por estar a produzir uma série da DC, rival da Marvel. Y foi lançada originalmente através da Vertigo, etiqueta que foi descontinuada em 2019 pela DC.

No elenco, Diane Lane (num raro papel principal numa série) e Amber Tamblyn (que não reconheci, no primeiro episódio) são os nomes mais sonantes do grupo, que acabou por ser uma das vítimas da complicada história de produção: o piloto foi produzido já com o envolvimento de Lane e Tamblyn, mas também com Marin Ireland, Juliana Canfield, Lashana Lynch, Imogen Poots, Timothy Hutton e Barry Keoghan. No entanto, após a encomenda da série e as novas mudanças, a produção da série foi atrasada para 2020, e novamente atrasada devido à COVID. Entre atrasos e mudanças, Lynch, Poots, Hutton e Keoghan acabaram por sair do projecto - fosse por questões de agenda ou por valorização da carreira (especialmente no caso de Lashana Lynch, que saltou de Captain Marvel para um papel no novo 007) e foram substituídos, respectivamente, por Ashley Romans, Olivia Thirlby, Paul Gross e Ben Schnetzer. Nomes menos sonantes e, para já, interpretações menos espectaculares - confesso que foi a presença de Lane e Tamblyn que me agarrou para ver mais para lá do primeiro capítulo. A série conta ainda com Elliot Fletcher, que já tinha dado boas indicações há uns anos em Shameless.

Depois de ver os episódios seguintes, deixei de ter aquela sensação de que isto é um 10.5 e comecei a lembrar-me de The Man In The High Castle: outra série baseada em literatura com uma forte premissa (o romance homónimo de Phillip K. Dick em que os nazis ganharam a guerra) e que, meio aos solavancos, lá conseguiu contar uma história de forma razoável (que acabou por ser melhor do que o livro) e valorizar algum do seu elenco. Não sei se Y será melhor do que a BD, mas pode ser que, por entre um caminho acidentado, se consiga afirmar junto de algum público. E, nesse caminho, talvez consiga aprender e melhorar.

Por cá, Y: The Last Man é considerado um original Star e estreou na Disney+ no dia 22 de Setembro com os três primeiros episódios. Há novos todas as semanas (com nove dias de atraso face ao lançamento original - cuidado com os spoilers).

Emmys 2021: As minhas apostas

Manuel Reis, 19.09.21

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Mais uma edição de Emmys num ano algo atípico, graças à COVID, que ainda terá consequências no ciclo 2021-22. E está tudo muito previsível… excepto nas mini-séries. Para já está praticamente fechado que os grandes vencedores, nem que seja apenas no grande total e nas contas finais, serão Ted Lasso, The Crown, The Queen’s Gambit e, claro, Saturday Night Live. Mas como este pequeno milagre de produção (ainda mais milagreiro com protocolos COVID) tem sido um crónico (e merecedor) vencedor nos últimos anos, vou-me focar nas outras três - e, sobretudo, na categoria de mini-séries, onde residem as maiores dúvidas.

Drama

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The Crown é aquela que dá maiores certezas no que vai ganhar. Num ano em que Succession, a “campeã em título”, teve a produção impedida devido à COVID-19 (a terceira temporada estreia na noite de 17 para 18 de Outubro na HBO Portugal), a quarta temporada de The Crown (e segunda e última com o actual elenco, tal como aconteceu na primeira temporada) seduz os votantes da Academia de Televisão - e a verdade é que essa sedução já se fez notar nos Creative Arts (os ditos “prémios técnicos”), em que a série venceu quatro estatuetas, incluindo Melhor Fotografia em Série Single Camera e Melhor Actriz Convidada (para uma Claire Foy que aparece durante pouquíssimos minutos e que, a meu ver, não chega para justificar o prémio face a outras nomeadas). A vitória nesta categoria, associada à vitória em Melhor Casting, leva-me a crer que a série vai limpar três das quatro categorias de performance (Actriz Principal para Emma Corrin, Actor Principal para Josh O’Connor e Actriz Secundária para Gillian Anderson). A Diana de Corrin deve ganhar à Rainha de Olivia Colman, que acaba a sua prestação na série sem vencer nenhuma das duas nomeações que obteve. Mas a série irá finalmente vencer, à quarta nomeação, o Emmy de Melhor Série.

Com Realização e Argumento também praticamente arrumados, o único Emmy que escapa a The Crown deve ser o de Melhor Actor Secundário, que deve ir para Michael K. Williams por Lovecraft Country - o que torna ainda mais triste a recente morte dele, quando, à quinta nomeação, irá muito certamente receber o Emmy atribuído pelos seus pares.* Não seria de descartar que Lovecraft Country também consiga uma surpresa na categoria de Melhor Actor, para Jonathan Majors, mas acredito que o momentum esteja do lado de The Crown.

*A morte de Michael K. Williams, a 6 de Setembro, já ocorreu após o fim da votação (30 de Agosto), pelo que não teria tido qualquer impacto na orientação de voto. É uma situação profundamente triste.

Comédia

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Ted Lasso, da Apple TV+, é a grande favorita praticamente desde a sua estreia, com uma primeira temporada fortíssima, tanto nas interpretações como nas histórias e na técnica, e não apenas por ser a série certa no momento certo: com uma perspectiva extremamente optimista do mundo e uma mensagem de mudança (que a segunda temporada tem continuado). Aposto em, pelo menos, quatro vitórias: Melhor Série, Melhor Actor Principal para Jason Sudeikis (o papel de uma vida), Melhor Argumento e Melhor Actriz Secundária, para Hannah Waddingham - embora este também ficasse bem entregue a Juno Temple ou outra Hannah, Einbinder, de Hacks, num breakout role formidável).

Ainda na Comédia, o Emmy de Melhor Actriz Principal vai certamente para a HBO Max, provavelmente para Jean Smart pela (acima de) formidável prestação em Hacks (que estou a ver enquanto escrevo estas linhas - é outra das comédias do ano), mas sem esquecer Kaley Cuoco em The Flight Attendant, uma aposta pessoal da actriz que renovou por completo a ideia que muitos tinham dela depois de 15 temporadas em sitcoms.

Por falar em The Flight Attendant: será essa ou mais um para Ted Lasso em Melhor Realização, que ainda pode levar Melhor Actor Secundário para Brett Goldstein ou Brendan Hunt - embora a minha aposta para essa categoria seja Kenan Thompson, do SNL, com Bowen Yang também em contenção - por si só já é uma nomeação histórica, ao ser a primeira de sempre para um actor do elenco secundário do programa. Thompson está no estúdio 8H desde 2003, é o actor com mais temporadas e mais episódios na história do programa, e não tem data de saída à vista - mas os membros da Academia gostam dele, e a nomeação para Melhor Actor por Kenan (uma sitcom medíocre, no máximo) mostra isso.

Mini-Séries

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Chegamos às mini-séries e à grande dúvida que rodeia The Queen’s Gambit. Antes do fim-de-semana passado, em que foram atribuídos os Creative Arts, as perspectivas para as categorias de mini-série (onde se incluem telefilmes, embora não tenham tido grande relevância este ano) estavam bastante divididas, dada a qualidade da concorrência (Entre esta, WandaVision, Mare of Easttown, I May Destroy You ou The Underground Railroad, há muita qualidade neste grupo - fora as que não foram nomeadas). Mas as nove vitórias da mini-série da Netflix, sobretudo aquelas em que existia concorrência forte (nomeadamente de The Crown, no Guarda Roupa ou nos Décors de Época, algumas das categorias em que a divisão não é feita por género), a concorrência rapidamente ficou para trás. Depois destes prémios, Scott Frank deve vencer Melhor Realização e a produção deve acabar por ganhar Melhor Mini-Série.

Não é que WandaVision ou Mare of Easttown não tenham hipóteses: A minha dúvida para Melhor Actriz Principal, categoria dificílima (talvez a mais concorrida desta edição), reside precisamente sobre Anya Taylor-Joy ou Kate Winslet- acredito que Michaela Coel irá ser distinguida por I May Destroy You com Melhor Argumento. Winslet e Taylor-Joy são as duas grandes favoritas (à hora de publicação, o GoldDerby dá-lhes odds de 3,5 a cada uma), mas não consigo descartar a surpresa de Elizabeth Olsen por WandaVision.

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A grande dúvida reside precisamente em Mare of Easttown. A vitória de Evan Peters em Melhor Actor Secundário parece certa, mas será que essa vitória e, possivelmente, a de Winslet, chegam para virar a maré? Mare saiu dos Creative Arts com apenas uma vitória (Décors Contemporâneos) em oito categorias (sem grande surpresa, diga-se, se virmos os vencedores das outras sete) e, a não ser que ultrapasse as favoritas Kathryn Hahn (por WandaVision) em Melhor Actriz Secundária ou a já referida Coel em Melhor Argumento, não acredito que consiga mudar a tendência.

Já se falou de WandaVision, série da Disney+ (e, até agora, a mais forte que a Marvel nos deu), e Paul Bettany é o favorito a vencer Melhor Actor Principal, tal como Hahn o é para Melhor Actriz Secundária. No entanto, no caso de Bettany, é preciso não descartar dois cenários: o de Hugh Grant, por The Undoing, uma grande aposta da HBO que a crítica não adorou (mas que conseguiu a sua franja de apoios) e Leslie Odom Jr., por Hamilton, que pode ser uma surpresa…

Em relação a Hamilton: a gravação do musical, cuja elegibilidade para prémios esteve em discussão durante o último ano*, está incluída nas Variedades, mas as performances foram repescadas (usando, de certa forma, o precedente de SNL) para estes prémios de obras (teoricamente) irrepetíveis, para terem alguma atenção e reconhecimento (como se já não tivessem ganho uma catrefada de Tonys). Hamilton era a minha aposta para vencer Especial de Variedades Pré-Gravado, mas depois de Bo Burnham: Inside ter ganho três prémios nos Creative Arts (incluindo Melhor Realizaçãopara Bo Burnham, batendo nomes como Spike Lee ou Thomas Schlamme), a votação nesta categoria pode ter pendido a favor de Odom Jr. e à tal surpresa em Melhor Actor Secundário em Mini-Série (“ou Telefilme”, formalmente).

*Os Globos de Ouro consideraram-no filme, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas não - o que abriu espaço para que fosse elegível para os Emmys, que o encostaram à categoria de Especial de Variedades pré-gravado - sim, é suposto ser confuso.

Outras categorias e séries

Noutras categorias, há vencedores esperados: Last Week Tonight deve levar os dois do costume (Talk-Show e Argumento para Programa de Variedades - embora não seja de descartar que Conan possa vencer Talk-Show para celebrar os 28 anos de programas diários de Conan O’Brien); Celebrating America, o especial transmitido no dia da tomada de posse de Joe Biden, deve vencer Especial de Variedades em Directo (num ano em que os Óscares cederam - talvez demasiado - ao experimentalismo de Soderbergh); RuPaul’s Drag Race vence Reality-Show de Competição e o SNL vence Sketches - embora não me importasse com uma surpresa e com a vitória da outra série nomeada, A Black Lady Sketch Show. The Mandalorian, Pose e Bridgerton já ganharam tudo o que possivelmente iam ganhar. A grande desilusão é mesmo The Handmaid’s Tale: depois de uma quarta temporada que revitalizou a série, as 21 nomeações (4.ª série mais nomeada do ano) vão dar em zero Emmys - sendo que Mckenna Grace merecia ter vencido Melhor Actriz Convidada em vez de Foy. Uma das grandes vencedoras do ano que será pouco falada é a antologia de animação Love, Death & Robots, cuja segunda temporada venceu seis Emmys.

Nos totais por canais e plataformas, a Netflix vai sair como grande vencedora. Depois dos 34 Emmys de 11 e 12 de Setembro, a big red vai juntar-lhes mais uns quantos com The Crown e (em princípio) The Queen’s Gambit. A Disney+ e a HBO devem acabar perto uma da outra, com a Apple TV+ logo a seguir e a NBC imediatamente atrás - ambas fortemente alavancadas por uma produção cada (Lasso e SNL). O cenário com a Disney+ e a Apple TV+ não é muito diferente entre os EUA e Portugal - mas, com aquisições para distribuição internacionais, os números da versão portuguesa da Netflix (que tem RuPaul) e da HBO Portugal (com Pose e algumas produções da HBO Max, mas sem outras desta ou da casa-mãe) crescem significativamente para serem, respectivamente, n.º 1 e n.º 2 dos operadores nacionais no total de Emmys.

A cerimónia dos Emmys será apresentada este ano por Cedric The Entertainer e realizada a partir de um espaço ao ar livre no complexo L.A. Live (o mesmo que abriga o Microsoft Theater, onde habitualmente se realiza a cerimónia). É transmitida em Portugal em directo, a partir da uma da manhã, na SIC Caras (eles dizem "meia-noite", mas isso inclui a red carpet).

Warner muda-se para a Cinemundo, HBO Max começa a falar português

Manuel Reis, 28.06.21

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Semana interessante para os irmãos Warner (e para a irmã Warner) nos mercados lusófonos: amanhã assistimos ao início da internacionalização da HBO Max (com o lançamento na América Latina) e, por cá, um novo acordo de distribuição em cinema, com a Cinemundo.

Comecemos por cá: é uma jogada interessante de mercado a juntar-se a outra que aconteceu pouco antes do início da pandemia e que passou um pouco despercebida à altura: depois da muito pública crise entre a NOS e a Universal (a NOS Distribuição distribuia filmes da Universal, mas a NOS exibidora recusava-se a aceitar termos comerciais da produtora), a Cinemundo pegou na distribuição da Universal e ficou assim com o seu primeiro contrato com uma das big four da produção.

A Warner também ficou interessada em mudar de ares, e a distribuidora portuguesa pega no catálogo, até agora também distribuido pela NOS, a partir desta Quinta-feira, 1 de Julho. No espaço de pouco mais de um ano, a Cinemundo passa da distribuição de zero para dois dos grandes estúdios de Hollywood (a Disney mantém-se numa relação de longa data com a NOS e, depois da absorção da 20th Century pelo Rato Mickey, também com esse conjunto de estúdios), com tudo o que isso possa implicar - sobretudo a real possibilidade de se tornar na distribuidora n.º 1 em Portugal. Mas, para isso, é preciso que não aconteça o que aconteceu em 2019 com a Universal e que os filmes estreiem na cadeia que “apenas” tem cerca de 40% dos ecrãs em Portugal.

De resto, não é errado pensar que a Cinemundo não pode esperar grandes resultados dos filmes da Warner em 2021: mesmo que os filmes “só” estreiem na HBO Max nos EUA, é o suficiente para que cópias de alta qualidade desses filmes voem directamente para sites de partilha de ficheiros e, consequentemente, para as casas das pessoas. Apesar desta estratégia da HBO Max ter sido considerada uma das causas para que a AT&T tenha acelerado desfazer-se da WarnerMedia (numa espécie de fusão com a Discovery), a verdade é que - e ao contrário dos rumores - Dune irá mesmo ter estreia simultânea nos cinemas e na HBO Max (nos EUA), e essa deve ser a norma com os lançamentos até ao fim do ano (onde também se inclui o novo The Matrix).

Ainda sobre a Cinemundo, e durante a apresentação deste projecto no Pátio da Galé, há já algumas semanas, o CEO Miguel Chambel - que, num momento algo espiritual, nos pediu para imaginar as diferenças entre ver filmes por streaming e em sala de cinema* - referiu que a Cinemundo se vai esforçar para ter as janelas de exclusividade em sala bem abertas. É interessante que ele diga isto num momento em que os estúdios se preparam para, após a pandemia, terem janelas de exibição ainda mais pequenas do que as que tinham antes, desejando acelerar a entrada dos filmes em streaming e PVOD. Veremos quem ganha, mas estou genuinamente farto de não ir ao cinema. Para outros detalhes, recomendo a leitura da entrevista feita pelo grande Pedro Miguel Coelho, do Espalha-Factos.

*Infelizmente, ver filmes em streaming/no computador não é algo que a pandemia me trouxe (nem a mim, nem a outros cinéfilos). Quer porque os filmes não estreiam cá, quer porque estreiam passado um ou dois anos… é algo infelizmente habitual, que a pandemia apenas expandiu. Torna-se pior com as séries e é um dos factores que me faz dizer que o streaming chegou tarde e ainda tem muito para aprender… mas isso fica para outro dia.

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Por outro lado, amanhã (29 de Junho) é lançada a HBO Max na América Latina (LATAM - alô, Brasil!), que marca o primeiro esforço de internacionalização do serviço. E as notícias são boas: o termo “upgrading” foi usado, o que faz antever que nos vamos ver livres da actual plataforma na qual se baseia a HBO Portugal (e a espanhola, e a nórdica, etc.) e migrar para uma plataforma única em que o conteúdo muda de acordo com os países (ou seja, exactamente como todas as outras rivais fazem). Mesmo que a nova app não esteja imune a problemas (bem pelo contrário), é uma mudança bem-vinda e irá (espero) atenuar alguns dos problemas existentes com a experiência de utilizador. (Não resolve más legendas ou a publicação dos conteúdos atempadamente*, mas já é um início - desde que memorize as watchlists ou os progressos das séries.)

* É o problema já referido anteriormente em relação à Cinemundo, mas invertido: aqui há uma verticalização do negócio bem definida - quem produz, distribui e exibe são braços da mesma empresa - mas continua a existir uma resistência desnecessária a uma distribuição global simultânea. O digital é mais rápido tanto para a distribuição própria, feita legalmente, como para aquela feita à revelia das empresas - mas o verdadeiro combate à pirataria deve passar por esbater essa diferença para perto de zero, e não manter ou dilatar. A tradução demora? Traduza-se antes o que for possível, e disponibilize-se, sem tradução, algo que poderá ter tradução posteriormente (a Disney+ fez isso com o Hamilton, correu bem, e continua sem legendagem). Isso custa mais dinheiro? 4,99€ é demasiado barato para a qualidade dos conteúdos - não necessariamente da aplicação ou da usabilidade da mesma, mas parto do princípio que essa parte será resolvida.

Os preços anunciados são muito competitivos, mais baixos do que os da HBO Go local em qualquer um dos planos. (Vale a pena ver a apresentação, para ir imaginando o que nos pode sair na rifa.) Os preços brasileiros, considerando que têm a transmissão da Liga dos Campeões e não têm anúncios*, são uma autêntica pechincha.

*Serviços de streaming com anúncios são obra do demónio. Se já no YouTube a implementação é má, aqui paga-se para termos anúncios colocados fora dos breaks para publicidade, se é que os episódios têm esses breaks. Diabólico. Se estas ideias cá chegarem, evitem e paguem a subscrição por inteiro. A experiência de utilizador tem de ser a rainha.*

Mas uma notícia que talvez nos possa dizer respeito é em relação à janela de exibição de filmes no cinema: durante a apresentação, referiram que os filmes da Warner irão para a HBO Max LATAM 35 dias após a estreia no cinema. Para não nos perdermos:

  • Estados Unidos: Estreia em simultâneo com cinemas, sai do streaming após o primeiro mês para ficar exclusivamente nos cinemas que sobrarem, para eventualmente regressar ao streaming algum tempo depois;
  • LATAM: Estreia primeiro em sala, e 35 dias depois na HBO Max.

Por cá continuamos à espera - o upgrade para a HBO Max em Portugal está marcado para o segundo semestre do ano, ainda sem data específica.

Mr. Mayor T1: prometeu muito e cumpriu pouco

Como um verdadeiro Presidente da Câmara.

Manuel Reis, 07.06.21

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Apesar de vir de Tina Fey e Robert Carlock, mentes por trás de Unbreakable Kimmy Schmidt e, claro, 30 Rock, Mr. Mayor parece uma versão desintegrada de qualquer uma destas séries. Era para ter sido um spin-off de 30 Rock passado em Nova Iorque e protagonizado por Alec Baldwin, mas o actor acabou por não voltar aos fatos de Jack Donaghy e a série mudou-se para Los Angeles por exigência de Ted Danson, a nova escolha para actor principal.

Com um elenco fortíssimo, esperava-se mais - mas temos um Ted Danson ainda muito colado a The Good Place a interpretar um guião também ainda muito colado a Baldwin e ao seu personagem, um Bobby Moynihan demasiado histérico e um restante elenco que merecia melhores piadas e diálogos - para lá da veterana Holly Hunter, há Vella Lovell (Crazy Ex-Girlfriend), Kyla Kenedy (um dos muitos pontos fortes de Speechless, que merecia ter tido mais uma temporada) e Mike Cabellon, além de alguns cameos e participações especiais de colaboradores regulares de Fey.

A série acabou por ser renovada para uma segunda temporada, e há comédias da NBC com um registo interessante em resolver quaisquer solavancos que tenham no seu início (em concreto, Parks and Recreation e a versão americana de The Office* - e até 30 Rock, que começou bem melhor, mas que foi evoluindo). Há alguma esperança, mesmo com uma primeira temporada medíocre.

*Sim, The Office e P&R são da mesma casta criativa, que é diferente da de 30 Rock. Mesmo assim.

Mr. Mayor estreia hoje (7 de Junho) em Portugal, no TVCine Emotion, às 22:10. Mesmo a tempo das autárquicas.

 

Pensamentos soltos durante o bloqueio.

Manuel Reis, 16.04.21

Uma espécie de Twitter, só que não é.

22:27: O Twitter não bloqueia nem expulsa contas que, de forma activa e permanente, espalham informação falsa sobre a COVID-19 desde antes da declaração de pandemia, mesmo quando se denuncia. Mas se alguém faz uma piada com o cabelo de uma pessoa, alto e pára o baile!

23:04: Adán, que jogo de Adán! Menos um jogo, menos uma preocupação!

Sábado, 17 de Abril

13:41: A morte do Príncipe Filipe não me diria grande coisa - mas depois há todo um espectáculo televisivo à volta disso - a própria BBC foi buscar Sir David Attenborough para comentar o funeral.

14:08: Parece que o Príncipe Filipe escolheu músicas para o próprio funeral. À espera que Always Look On The Bright Side of Life seja tocada como marcha militar.

A programação habitual segue dentro de momentos.

Manuel Reis, 16.04.21

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Estimo que o Twitter se foda.

Assim, sem meias palavras. Não as merecem. Ainda há uns dias escrevi (por sinal, no Twitter - que não me deixa aceder a essa informação) algo sobre a bidimensionalidade dos conteúdos nas redes: da impossibilidade das máquinas perceberem totalmente o conteúdo do texto por não perceberem ironia, sarcasmo, uma piada. Eis a demonstração prática.

O meu "erro" foi responder a este tweet…

… a dizer que, quando ela estiver vacinada, a recepção 5G será impecável.

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E pronto, o Twitter apitou.

Mantenho o que disse. Porque também sei que, nos últimos 13 meses, tenho estado a apertar com as pessoas para usarem máscara, desinfectarem as mãos, para que se testem sempre que seja necessário, para se vacinarem assim que seja possível… Já acabei seguido até casa por um tipo que se recusava a pôr a máscara no supermercado.

Há sempre contexto. Aqui está perfeitamente presente. Não tenho culpa que um algoritmo não entenda contexto, nem que não existam moderadores humanos suficientes para esta função. Isso é obrigação do Twitter - que, se calhar, se tornou demasiado grande para a capacidade de resposta que tem.

Enquanto esta parvoíce não acaba, estou pelo Instagram a torturar um autocolante do Twitter nas Stories.

#LibertemOManel

Update, 22:11: Primeiro apelo recusado. É um pouco difícil fazer um apelo decente com um limite de 160 caracteres - abaixo do que o Twitter actualmente permite num tweet (280).

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